Crítica | Fragmentado (Split)

Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades diferentes e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, uma de suas facetas sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar. A fórmula …

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Nota Geral

3,5

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70

Kevin (James McAvoy) possui 23 personalidades diferentes e consegue alterná-las quimicamente em seu organismo apenas com a força do pensamento. Um dia, uma de suas facetas sequestra três adolescentes que encontra em um estacionamento. Vivendo em cativeiro, elas passam a conhecer as diferentes facetas de Kevin e precisam encontrar algum meio de escapar.

A fórmula M. Night Shyalaman de fazer cinema, antigamente, era resumida em: suspense com uma pitada de terror, espalhados em um mundo perfeitamente natural ou repleto de realismo. O cineasta de origem indiana sempre prezou pela inclusão do sobrenatural no cotidiano de forma leve em seus primeiros filmes, como os inesquecíveis “O Sexto Sentido“, cuja realidade mescla com a capacidade humana de ver e interagir com os mortos, “Corpo Fechado” (este de extrema importância para uma compreensão mais abrangente de Fragmentado), que trás para o mundo real a mitologia de “super-heróis” e “super-vilões”, e “Sinais“, que envolve conflitos familiares, águas contaminadas e extraterrestres.fragmentado 2

 

As produções, de 1999, 2000 e 2002, respectivamente, foram o ápice da carreira do cineasta, que chegou a ser considerado “o novo Spielberg” no começo do século XXI. Porém, logo após “Sinais“, Shyamalan desandou de uma maneira visivelmente desastrosas, salvando-se apenas pelo roteiro original do terror “Demônio” e pela produção da primeira temporada da série “Wayward Pines”. “Fragmentado” (Split) é considerada a nova chance do cineasta se redimir depois da frustada tentativa com “A Visita“. A questão é: M. Night Shyamalan conseguiu captar os fragmentos para reconstruir seu cinema de suspense à moda antiga ou, mais uma vez, fragmentou tudo aquilo que construiu no final dos anos 90 em mais uma tentativa fracassada?

Felizmente, “Fragmentado” está mais perto de um autêntico filme de Shyamalan, isto é, com todos os componentes da identidade construída pelo diretor, do que qualquer longa-metragem que este tenha dirigido depois de 2002. A prova disso é a sutileza em tratar temas que mesclam o real com o sobrenatural. O caso de “Fragmentado”, porém, é focar suas temáticas – mais precisamente, pedofilia, depressão e, principalmente, transtorno de personalidade – voltado para a realidade e ainda assim de maneira extremamente sutil e percebivelmente compreensível, sendo até em determinados momentos mais direto do que objetivo do que deveria ser.

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Eis que surge um grande defeito no que poderia ter sido o maior acerto da carreira de M. Night Shyalaman: a falta de um fator surpreendente que seria responsável por dar um desfecho igualmente surpreendente a uma história tão fantástica como a de “Fragmentado”. Shyamalan dessa vez pareceu não se preocupar em criar uma reviravolta original e preferiu resgatar uma velha fórmula que será apenas atrativa (ou não, para falar a verdade) somente para aqueles que conhecem os primeiros trabalhos do diretor. É um fato que Shyamalan tenha criado uma identidade para seus filmes de suspense, mas usá-la como desculpa para um desfecho preguiçoso não é prudente.

Por outro lado, “Fragmentado”, apesar de sofrer com o final sem grande intensidade acompanhado de um “fã-service” extremamente desnecessário, faz realmente bonito ao mostrar suas temáticas e desenvolvê-las ao longo com flashbacks e constantes mudanças de personagens. E que personagens aqueles do espetacular James McAvoy! Dessa vez, não eram outras pessoas “interpretando” o Professor Xavier e sim o Professor Xavier incorporando 23 identidades. Referências desnecessárias a parte (assim como o final do filme), McAvoy dosa de maneira incrível e grandiosa as identidades que tomam conta do seu personagem, Kevin Wendell Crumb, que modificam tanto o seu psicológico quanto a estrutura físico-química de seu organismo.

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O eterno Professor X da franquia “X-Men” não só atua almejando um Oscar (já sugiro ficarmos na torcida, pois ele merece) e sim tem a chance de esbanjar seu talento de uma maneira intensa da qual nunca havia feito. Anya Taylor-Joy, ao contrário do que muitos pensavam, não tem seu talento apagado pelo excesso do brilho de McAvoy! A jovem estrela de “A Bruxa” não poupa esforços para construir sua personagem, uma das melhores de todo filme, que, na verdade, podia muito bem ser considerada a verdadeira protagonista. Taylor-Joy é um talento que veremos bastante daqui para frente e muito mais do que merecidamente.

Em conclusão, “Fragmentado” é, de fato, um filme à altura do M.Night Shyamalan do final da década de 90 e início dos anos 2000. Mesmo escorregando no seu maior potencial, que foi a sutileza em tratar temas de extrema seriedade até tornar o desfecho do filme raso e sem grandes resultados, o longa-metragem funciona e prova que, quase 15 anos depois, Shyamalan tem potencial para dirigir um bom suspense, mas sem exagerar ao ponto de considerar o cineasta “um novo Steven Spielberg”.

 

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About Lucas Rigaud

Lucas Rigaud
Estudante de jornalismo, escritor, cosplayer, cospobrer e pseudo fotógrafo. Astronomia, cinema, música das antigas, quadrinhos. Como diria John Lennon: Apenas um pedaço de nada.
Host Geek. 2014.